O Mito e a Lenda, Conheça as Criaturas Mitológicas Brasileiras – Parte III

O Mito e a Lenda, Conheça as Criaturas Mitológicas Brasileiras – Parte III

O Mito e a Lenda são formas populares de transmissão de conceitos e cuidados relativos à vida e convivência, passada oralmente de pais para filhos. Conheça mais personagens do folclore brasileiro.

Mula sem Cabeça

A lenda veio dos povos da Península Ibérica, folclore português e espanhol, se espalhou na área rural, na zona canavieira do Nordeste e interior do Sudeste do país. No México, é conhecida como Marola, na Argentina é conhecida como Mula Anima.

É o fantasma de uma mulher que foi amaldiçoada por Deus pelos pecados (concubinato ou fornicação com padre numa igreja) e condenada a se transformar em uma forte mula sem cabeça, com fogo no lugar da cabeça, galopa assombrando quem encontra através dos campos desde o sol de quinta-feira até o nascer do sol de sexta-feira, lançando fogo pelo buraco de sua cabeça, tem nas patas calçados de ferro, aço ou prata e seu violento galope e relincho estridente são ouvidos a grande distância. O mito varia em relação ao pecado que transforma a mulher amaldiçoada no monstro. Pode soluçar como um humano.

O encanto termina se alguém tiver coragem de arrancar da cabeça o freio de ferro ou tirar uma gota de sangue com uma madeira virgem. Apesar de sem cabeça, relincha. Quando o freio lhe é tirado, aparecerá nua, chorando arrependida, e não retomará a forma encantada enquanto o corajoso residir na mesma freguesia.

A tradição comum é que esse castigo acompanha a manceba do padre durante o trato amoroso (J. Simões Lopes Neto, Daniel Gouveia, Manuel Ambrósio, etc.). Ou tenha punição depois de morta (Gustavo Barroso, O Sertão e o mundo).

Corre sete freguesias em cada noite, para quebrar o encanto basta fazê-la sangrar, mesmo que seja com a ponta de um alfinete.

Para evitar o bruxedo, deverá o amásio amaldiçoar a companheira, sete vezes, antes de celebrar a missa. Manuel Ambrósio cita o número de vezes indispensável, muitíssimo maior (Brasil Interior). Chamam-na também Burrinha de padre ou simplesmente Burrinha. A frase comum é “anda correndo uma burrinha”.

Todos os sertanejos sabem do que se trata. Em um dos mais populares livros de exemplos na Idade Média, o Scala Celi, de Johanes Gobi Junior, há o episódio em que a hóstia desaparece das mãos do celebrante porque a concubina assiste à missa (Studies in the Scala Celi, de Minnie Luella Carter, dissertação para o doutorado de Filosofia na Universidade de Chicago, 1928). Gustavo Barroso supõe que a origem do mito provenha do uso privativo das mulas como animais de condução dos prelados, com registros no documentário do século XII.

Tudo começou quando um homem seguiu sua esposa até o cemitério e a surpreendeu enquanto ela violava uma sepultura, com um grito horrendo, a mulher se transformou na Mula sem Cabeça e fugiu a galope, soltando chamas e dando coices.

A mula costuma correr pelas matas e campos assustando pessoas e animais.

Versões:

1- Se uma mulher dormir com o namorado antes do casamento, pode se enfeitiçar e virar uma mula sem cabeça. Essa versão está ligada às tradições das famílias que buscavam o controle dos relacionamentos amorosos de suas filhas. Era uma forma de mantê-las dentro dos padrões morais da época.

2- Toda mulher que mantivesse ligações amorosas com um padre, seria castigada e transformada em mula sem cabeça. Essa lenda tem um cunho moral e religioso, onde se pretendia intimidar as mulheres que procuravam manter um relacionamento com os religiosos da Igreja Católica. Segundo a narrativa, o encantamento acontecia nas noites de quinta-feira, quando a mulher era transformada em mula sem cabeça. Ela lançava fogo pelo pescoço e corria em disparada pelas matas e pelos campos. Com suas patas, ela despedaçava os animais e as pessoas que surgissem em sua frente. Até o terceiro cantar do galo, quando o encantamento desaparecia e ela estava exaurida ou mesmo ferida, ela retornava a sua normalidade. Para acabar de vez com o encantamento que recaía sobre a pecadora, alguém deveria arrancar os freios da mula ou furá-la com algum objeto pontiagudo a fim de tirar-lhe sangue, mesmo que fosse apenas uma gota. O encantamento também poderia ser tirado pelo padre (o amante), que deveria amaldiçoá-la sete vezes antes de celebrar as missas.

 

Nego da Água

Negro D’água, Caboclo D’água ou Nego D’água vive em diversos rios, como o Rio São Francisco (onde existe monumento feito pelo escultor juazeirense Ledo Ivo Gomes de Oliveira, com mais de doze metros de altura, construído dentro do rio, na cidade de Juazeiro, Bahia), Rio Tocantins, Rio Grande, comum entre os ribeirinhos da região Centro-Oeste, do Sertão Nordestino e no interior do Sudeste, manifesta-se com gargalhadas, preto, careca e mãos e pés palmadas como as de pato, derruba a canoa dos pescadores, se eles se negam a dar um peixe. Em alguns locais do Brasil, ainda existem pescadores que, ao sair para pescar, levam uma garrafa de cachaça e a jogam para dentro do rio, como oferenda, para que não tenham sua embarcação virada. Essas barganhas pouco adiantam, por gostar mesmo de atormentar os homens…

Aparece para pescadores e pessoas que estejam nos rios, só habita rios e raramente sai deles. Amedronta pessoas, parte os anzóis, fura as redes e assusta pessoas que navegam. Ele é um negro, alto, atlético, careca, de orelhas pontudas, anfíbio, que possui nadadeiras, pés e mãos com garras afiadas e corpo coberto por uma pele permeada por escamas.

Para alguns é protetor das águas, para outros, uma ameaça terrível! À vezes, se faz preguiçoso, esticando-se nas grandes pedras no meio do rio para tomar sol. Gosta também aterrorizar as mães, costuma de carregar as crianças que tomam banho longe das margens. Qualquer um pode ficar amigo do Nego e até pedir favores usando os poderes sobrenaturais que tem, mas para isso é preciso cortar uma das garras dele.

 

Negrinho do Pastoreio


O negrinho do pastoreio é muito conhecido na região sul do país (Rio Grande do Sul), surgiu provavelmente o século XIX, com origem africana e cristã, ainda no tempo da escravidão, espalhada por brasileiros que defendiam o fim da escravidão: um pequeno escravo que sofreu maus tratos de um fazendeiro, que pediu para cuidar de alguns cavalos, entretanto um fugiu. Ao retornar, o dono sentiu falta do cavalo, de nome Baio e castigou o negrinho.

Ele buscou o cavalo perdido, chegou a encontrá-lo, porém, não conseguiu capturá-lo. Ao regressar, seu senhor resolve castigar o garoto com muitas chibatadas e, além disso, lança-o num formigueiro. Perto da morte, o fazendeiro resolve deixar o garoto ali no formigueiro, certo de que já estava morto.

Entretanto, no dia seguinte, o próprio fazendeiro se depara com o garoto e fica perplexo, pois a criança não apresentava nenhum ferimento no corpo. Montado no Baio, o cavalo perdido, e ao seu lado, estava a Virgem Maria, padroeira do garoto órfão. Muito arrependido, o fazendeiro resolve pedir perdão, todavia, o negrinho sai galopando feliz e livre no cavalo Baio.

Se algum objeto está perdido, o negrinho do pastoreio pode ajudar a encontrá-lo. Basta acender uma vela perto de um formigueiro e pedir com muita fé que objeto reaparecerá.

Quem perder coisas no campo, deve acender uma vela junto de algum mourão ou sob os ramos das árvores, para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo: “Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi… Foi por aí que eu perdi…” Se ele não achar, ninguém mais acha.

Versões:

O fazendeiro é avisado pelo filho sádico que o negrinho, responsável por cuidar de 30 cavalos, deixou um deles fugir. Isso porque ele estava muito cansado e decidiu dormir.

Ao acordar, o pequeno escravo sentiu falta do cavalo, porém, o fazendeiro já sabia do ocorrido e resolveu castigar o negrinho.

Em um dia de inverno, fazia muito frio e o fazendeiro mandou que um menino negro de quatorze anos fosse pastorear cavalos e potros que acabara de comprar. No fim da tarde, quando o menino volta, e diz que faltava um cavalo baio. O fazendeiro pegou o chicote e deu uma surra tão grande no menino que ele ficou sangrando. Dizendo: “Você vai me dar conta do baio, ou verá o que acontece.” Aflito, o menino foi à procura do animal. Em pouco tempo, achou o cavalo pastando. Laçou-o, mas a corda se partiu e o cavalo fugiu de novo, o estancieiro, ainda mais irritado, bateu novamente no menino e o amarrou nu, sobre um formigueiro. No dia seguinte, quando ele foi ver o estado de sua vítima, tomou um susto. O menino estava lá, de pé, com a pele lisa, sem nenhuma marca das chicotadas. Ao lado dele, a Virgem Nossa Senhora, e mais adiante o baio e os outros cavalos. O estancieiro se jogou no chão pedindo perdão, mas o negrinho nada respondeu. Apenas beijou a mão da Santa, montou no baio e partiu conduzindo a tropilha. A partir disso, entre os andarilhos, tropeiros, mascates e carreteiros da região, todos davam a notícia, de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, montado em um cavalo baio. Desde então, quando qualquer cristão perdia uma coisa, fosse qualquer coisa, pela noite o Negrinho procurava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar de sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o livrou do cativeiro e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.

Um menino negro e pequeno não tinha padrinhos nem nome, sendo conhecido como Negrinho, e se dizia afilhado da Virgem Maria. Após perder uma corrida e ser cruelmente punido pelo estancieiro, o Negrinho caiu no sono, e perdeu o pastoreio. Ele foi castigado de novo, mas depois achou o pastoreio, mas, caindo no sono, o perdeu pela segunda vez. Desta vez, além da surra, o estancieiro jogou o menino sobre um formigueiro, para que as formigas o comessem, e foi embora quando elas cobriram o seu corpo. Três dias depois, o estancieiro foi até o formigueiro, e viu o Negrinho, em pé, com a pele lisa, e tirando as últimas formigas do seu corpo; em frente a ele estava a sua madrinha, a Virgem Maria, indicando que o Negrinho agora estava no céu. A partir de então, foram vistos vários pastoreios, tocados por um Negrinho, montado em um cavalo baio

O primeiro registro conhecido da lenda foi feito por Antonio Maria do Amaral Ribeiro, em 1857, que a caracterizou como “uma superstição, que tem tanto de absurda quanto de ridícula e exótica.” O Negrinho do Pastoreio também apareceu nas obras de Alberto Coelho da Cunha, em 1872, e de Apolinário Porto Alegre, 1875, que por vezes é considerado o primeiro registro da lenda, e por Alfredo Varela, em 1897. Em 1906, João Simões Lopes Neto publicou a lenda em folhetim na imprensa pelotense e, em 1913, no livro Lendas do Sul, sendo esta versão a mais esteticamente rebuscada e a mais popularizada. Além dos brasileiros, publicaram versões o escritor uruguaio Javier Freyre em 1890, o espanhol Daniel Granada em 1896 e o argentino Juan Ambrosetti em 1917.

 

Pisadeira

Uma velha assustadora, de cabelos brancos desgrenhados, magra e queixuda, com unhas compridas e dedos longos, olhos vermelhos arregalados e malignos. Essa “linda” senhora passa bastante tempo nos telhados só a observar as casas. Quando alguém vai dormir de barriga cheia, ela aparece e pisa no peito de quem comeu demais, a pessoa fica paralisada, mas consciente, o que torna a experiência muito mais assustadora.

Não se pode dormir em paz nem no folclore.

 

Vira-Porco

O homem que virava porco era a que mais instigava a imaginação maranhense até a segunda metade do século XX. Um porco preto, enorme e assustador, à espreita daqueles que se aventuravam vagar sozinhos pela cidade depois da meia-noite, era uma época sem iluminação elétrica, que propiciava o terror da escuridão noturna.

Desde a colonização, os portugueses trouxeram a história, que recebeu aqui o reforço dos negros escravos, que também conhecem o vira porco, fixando fortemente na cultura popular de algumas regiões brasileiras.

No interior do Pará, nas cidades de Breves, Bagre, Melgaço, Curralinho e São Sebastião da Boa Vista, em São Paulo, nas cidades como Adrelândia e Taubaté.

Até uma fotografia do bicho foi publicada pelo Correio Paulistano de 28/05/1950, na sua página “Correio Folclórico”. Segundo o jornal, a foto foi feita durante uma aparição do horrendo animal no cemitério da cidade paulista de Botucatu, em 1947. O tal “lobisomem” da foto tem cabeça de porco, a parte traseira mais alta que a dianteira e destaca-se entre as cruzes dos túmulos.

Os esquisitos ou solitários eram apontados como “viradores de porcos”. Entre os suspeitos, destacaram-se em épocas distintas:

Pereira Capão, um senhor que residia na casa cor de rosa;

Marcos, carroceiro negro que morava na Rua João de Parma;

Zé de Dadá que morava com as duas irmãs na Coronel Campelo.

O mais famoso, entretanto, foi o negro estivador Raimundo João Escobar, que morava sozinho numa choupana de palha lá pelas bandas do antigo Ciroula.

O fenômeno sobrenatural realizava-se, à meia-noite das sextas-feiras, aproveitando a escuridão noturna, o homem-porco enfurecido atacava qualquer transeunte que encontrasse pelo caminho. Os que escaparam dos ataques contavam que na noite, sob a tênue claridade da lua viram um porco preto, parado, que investia contra eles, que não tinham alternativa senão correr até alcançar o portão da sua residência, para se livrar do ataque.

Isso que eu vou contar pra vocês, é um relato real, é um fato, aconteceu de verdade com meu pai, quando ele era jovem, e era do exército, quando estava acampando, em Castanhal, no Pará, com alguns amigos…

Meu pai me contou o que aconteceu enquanto me mostrava umas fotos, era o seguinte: Ele e mais três amigos (um amigo do meu pai, outro amigo e o meu tio), acampavam na mata, perto de um igarapé. Eles de cara sacaram que a ilha era muito bizarra e ouviram que lá morava um feiticeiro (tipo bruxo, mago, chame como quiser) que tinha uma filha. Montaram a barraca, foram catar lenha, e tudo mais.

Quando a noite chegou, eles foram se deitar, e o meu tio ficou na parte do lado da barraca. Começaram a ouvir barulhos do lado de fora da barraca, choros de bebê, risadas, gritos, e resolveram espiar, quando olharam pro lado de fora, viram ao longe uma mulher, jovem, vestida com um vestido branco; ficaram apavorados e fecharam a janela da barraca, o meu pai tava deitado no meio, daí o meu tio (que tava morrendo de medo) que tava do lado esquerdo da barraca, ficou apavorado, e meu pai perguntou: “Quer vir para o meio?” Meu tio e meu pai trocaram de lugar e depois de uma longa noite aterrorizante, finalmente o dia amanheceu.

Quando eles saíram pra pescar o almoço, viram na areia branca do chão várias pegadas de homem se transformando em pegadas de um suíno. Seguiram as pegadas e se depararam com um enorme porco, que quando os viu correu para os atacar. Meu tio atirou na perna do porco, que caiu no chão, e eles voltaram pra barraca para pegar algum pano e carregá-lo. Quando voltaram, se depararam com o feiticeiro no chão, com o tiro alojado na mesma perna que o do porco, então eles acudiram o feiticeiro, e foram embora de lá dessa ilha.

Versões:

Em outras localidades do interior do país, além de lobo ou porco, a metamorfose do indivíduo adquire também as formas de cachorro, bezerro, burro ou bode. O ponto em comum é que todos são de cor escura e normalmente possuidores de grandes garras para atacar e ferir as pessoas.

A pessoa procura uma encruzilhada, galinheiro, chiqueiro ou vai para debaixo de uma goiabeira, tira a roupa, dá sete nós na camisa e urina em cima, esconjurar pai, mãe, padrinho, madrinha, o nome de Deus e de Nossa Senhora ou coloca a camisa sobre cascas de mariscos do mar e sobre ela rebola ou dá cambalhotas, recitando palavras mágicas, sob os raios da lua.

Pode se transformar qualquer dia da semana, exceto sábados e domingos.

Só se transforma em datas específicas como a noite de quinta para sexta-feira santa ou durante toda a Quaresma, os dias 13 de qualquer mês, as sextas-feiras, em especial a primeira de cada mês, mas que tenha de lua cheia ou quarto-minguante.

Se alimenta de fetos, crianças pagãs, cadáveres, carniça e excrementos de outros animais. Para ser ferido de morte, é preciso acertá-lo no dedo mindinho do pé com bala benta ou lambuzada de cera de vela de altar.

As diversas formas de contrair a maldição que transforma a pessoa em porco, cachorro, bode, são:

  • Ser o primeiro ou o último de uma série de sete filhos;
  • O sétimo filho de um casal que só tinha fêmeas;
  • Filho de incesto, no qual se incluem as comadres;
  • Homem cheio de maldade que nunca fez o bem;
  • Ter sido amaldiçoado por pais ou padrinhos;
  • Nascer no dia 12/12 às 00:00 hora;
  • Vontade divina como castigo ou penitência.
  • Permanecer durante dez anos sem confissão ou comunhão ou sem molhar os dedos em água-benta;
  • Para anular a maldição é necessário ser batizado pelo irmão mais velho ou pelo do meio, e receber, na pia batismal, o nome de Bento ou Custódio.

 

Mitos e Lendas Parte 1, Parte 2, As 10 mais legais!


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