O Mito e a Lenda, Conheça as Criaturas Mitológicas Brasileiras – Parte II

O Mito e a Lenda, Conheça as Criaturas Mitológicas Brasileiras – Parte II

O Mito e a Lenda são formas populares de transmissão de conceitos e cuidados relativos à vida e convivência, passada oralmente de pais para filhos.

Comadre Florzinha

Comadre Fulozinha, Mãe da Mata, é conhecida na zona da mata de Pernambuco e da Paraíba, no nordeste brasileiro.
Seu nome deriva provavelmente da pronúncia regional de “Comadre Florzinha” e ela é muitas vezes confundida com Caipora, sendo considerada uma variante. Em alguns lugares, acredita-se mesmo que são o mesmo ser.
Pode assustar quem esteja andando a cavalo na mata sem lhe deixar uma oferenda. Ela amarra o rabo e a crina do animal de tal forma que ninguém consegue desatar os nós. Amarra rabos dos cavalos no estábulo. Conhecida como entidade que protege a floresta, daí semelhança com a Caipora. Não gosta de ser confundida com esta, dando em quem as confunde uma surra com urtiga, planta que causa muita coceira, ou com seus longos cabelos.
São comuns relatos de pessoas que presenciam suas aparições nas zonas de floresta.
No culto da Jurema (árvore sagrada) na Paraíba ela é considerada uma entidade divina e tem caráter ambíguo, agindo para o mal e para o bem.
Ataca cachorros de caçadores e de quem derruba árvores

Versões
1- É o espírito de uma cabocla de longos cabelos negros, que lhe cobrem todo o corpo. Ágil, vive na mata defendendo animais e plantas contra as investidas dos destruidores da natureza. Gosta de receber presentes, principalmente papa de aveia, confeitos, fumo e mel. Quando agradada, logo faz que a caça apareça para quem fez a oferenda e permite que este consiga sair da mata, alguns idosos conversam com ela.
Tem personalidade zombeteira, algumas vezes malvada, outras vezes prestimosa. Diz-se que corta violentamente com seu cabelo aqueles que entram na mata sem levar oferenda de fumo, enrolando-lhes a língua. Furtiva, seu assovio se torna mais baixo quanto mais próxima ela estiver, parecendo estar distante. Gosta de fazer tranças e nós na crina e no rabo dos cavalos. Somente ela os consegue desfazer e desfará se for agradada com fumo e mel.

2- Comadre Fulozinha era uma criança que se perdeu na mata quando ainda era pequena e morreu procurando o caminho de volta para casa. Seu espírito passou a vagar pela floresta em busca do caminho de volta.

3- Menina de cabelos negros e assanhados que à noite viram fogo, que tem origem, provável, no período colonial. A história, inclusive, se confunde com a do Saci e a do Curupira. A menina se perde na mata, e falece desnutrida. Seu espírito fica perdido na mata e, com o passar do tempo, ela aterroriza as fazendas e aldeias.

4- Cabocla de cabelos bem longos e negros; Vive caminhando feliz pelas florestas, pronta para assustar os homens predadores e defender os animais e plantas; Pode desaparecer por alguns instantes; Pode assoviar como se estivesse em locais diferentes, confundindo os que estão na mata; Adora mingau e doces; Gosta muito de brincar com os animais e fazer tranças na cauda dos cavalos; Costuma assustar cavaleiros que passam pela mata e não deixam oferendas (mingau, doces) para ela.

4- É uma espécie de fadinha maliciosa e faceira. Pequenina, tem os cabelos longos e sempre enfeitados com flores. É protetora das matas e dos animais. Tem irmãzinhas e, juntas, conseguem assustar caçadores e derrubadores de árvores. É meio parente do Caipora e como o Saci, diverte-se, fazendo travessuras. Sabe corresponder à amizade das pessoas que a agradam.

Mãe D’Água

Iara ou Uiara (do tupi y-îara, “senhora das águas”) ou Mãe-d’água
É uma linda sereia que vive no rio Amazonas, sua pele é parda, possui cabelos longos e verdes, e olhos castanhos.
Cronistas dos séculos XVI e XVII registraram que, no princípio, o personagem era masculino e chamava-se Ipupiara, homem-peixe que devorava pescadores e os levava para o fundo do rio.
No século XVIII, Ipupiara vira a sedutora sereia Uiara ou Iara. Pescadores de toda parte do Brasil, de água doce ou salgada, contam histórias de moços que cederam aos encantos da bela Iara e terminaram afogados de paixão.
Ela deixa sua casa no leito das águas no fim da tarde. Surge sedutora à flor das águas: metade mulher, metade peixe, cabelos longos enfeitados de flores vermelhas.
Por vezes, ela assume a forma humana e sai em busca de vítimas.

Olavo Bilac compôs o poema A Iara em que descreve a sereia.

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
De cabeleira de ouro e corpo frio.
Entre as ninféias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.
Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo…
Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d’água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

A parte inferior do seu corpo em formato de peixe não é muito notada, por estar submersa em água. Assim não há quem resista a sua belíssima face e suas doces canções mágicas.
Seu poder é tão forte que basta convidar os homens para irem à sua direção que eles vão, acreditando vivenciar uma experiência incrível com a encantadora mulher.
As intenções são malignas e fatais, ela quer atraí-los para a morte. São raros os que sobrevivem ao encanto da sereia e caso retornem não conseguem ter uma vida normal por ficarem loucos. Somente um pajé ou uma benzedeira é capaz de curá-los definitivamente.
Antes de se tornar uma sereia, Iara era uma belíssima índia trabalhadora e corajosa. Iara se destacava entre os demais, por ser a melhor, consequentemente despertava inveja de alguns da tribo, especialmente de seus irmãos homens, que não se conformavam com tal situação.
Seu pai era pajé e admirava tudo o que fazia contribuindo ainda mais para a revolta dos irmãos. Tomados pela inveja e pelo ciúme, os irmãos de Iara decidiram matá-la.
Certa noite, quando Iara repousava em sua cama, ouviu seus irmãos entrando em sua cabana para matá-la. Rápida e guerreira, se defendeu e acabou matando-os. Percebendo a gravidade da situação e com medo da atitude de seu pai, Iara fugiu desesperadamente pelas matas. O pai de Iara realizou uma busca implacável pela filha. Localizaram e puniram-na, jogando no encontro do rio Negro com Solimões. Os peixes trouxeram seu corpo à superfície e sob o reflexo da lua cheia transformou-se em uma linda sereia com cabelos longos e olhos verdes.
Desde então Iara permanece nas águas atraindo os homens de maneira irresistível e os matando. Em cada fase da lua, Iara aparece com escamas diferentes e adora deitar-se sobre bancos de areia nos rios para brincar com os peixes. Pode ser vista penteando seus longos cabelos com um pente de ouro, mirando-se no espelho das águas.
É conhecida em várias regiões brasileiras e existem diversos relatos de pescadores que contam histórias de jovens que cederam aos encantos da tentadora sereia e morreram afogados de paixão.

Segundo Luís da Câmara Cascudo, sua origem é europeia, e chegou ao Brasil na segunda metade do século 19. Está presente em diversos povos europeus. Aparece desde a Odisseia de Homero que data do século 9 a.C., mas lá é descrita como meio pássaro e não peixe.
Das criaturas europeias que são metade mulher, metade peixe, a mais conhecida é Loreley, dos povos nórdicos e germânicos. É sobre ela que se contam as histórias de sedução de marinheiros que se afogam nas profundezas das águas, onde ela tem seu castelo.
Não está documentado nenhum mito semelhante entre os índios brasileiros dos séculos 16, 17 e 18 pelos cronistas e viajantes que percorreram o Brasil. Nas crenças indígenas, existem várias mães dos diversos elementos da natureza (a Mãe do Mato, a Mãe do Fogo, a Mãe da Fruta, etc.). São as Ci, em tupi.
No entanto, elas não têm forma humana. Na verdade, não têm forma propriamente dita. São entidades difusas, identificadas com o próprio elemento a que deram origem. Também não são entidades sedutoras nem maléficas. Apenas protegem seus filhos das agressões dos seres humanos.
Para os índios brasileiros, a criatura que reside nas águas e devora os homens ou os mata afogados é a Cobra d’Água, também chamada de Cobra Grande ou Boiúna, que não se torna mulher. No Amazonas, é o mito do Boto que se transforma, para seduzir o sexo oposto.
A Mãe d’Água, porém, está presente em outras tradições que ajudaram a formar o folclore brasileiro: as tradições africanas. É o caso de Iemanjá, dos negros iorubanos, um orixá do candomblé. Iemanjá é a mãe ou rainha das águas e é a entidade que deve ser cultuada especialmente por aqueles que vivem do mar, pescadores e marinheiros.
Por sua origem africana, Iemanjá, que ainda pode ser conhecida como Janaína ou dona Janaína, não tem originalmente a forma de uma sereia e nem é branca. É a mistura de várias tradições, lendas e mitos que vai resultar naquela mulher alva, vestida de azul-claro, que é representada, em geral, saindo das espumas do mar.
Apesar de não se tratar de um santo católico, ligou-se a essa religião pelo sincretismo que identificou Iemanjá com Nossa Senhora.

A novidade – Paralamas do Sucesso (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone) e Gilberto Gil

A novidade veio dar à praia
Na qualidade rara de sereia
Metade o busto
D’uma deusa Maia
Metade um grande
Rabo de baleia…

A novidade era o máximo
Do paradoxo
Estendido na areia
Alguns a desejar
Seus beijos de deusa
Outros a desejar
Seu rabo prá ceia..

Oh! Mundo tão desigual
Tudo é tão desigual
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Oh! De um lado esse carnaval
De outro a fome total
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!…

Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!
Ô Ô Ô Ô Ô Ô Ô!
Ah! Aaaah!

E a novidade que seria um sonho
O milagre risonho da sereia
Virava um pesadelo tão medonho
Ali naquela praia
Ali na areia…

A novidade era a guerra
Entre o feliz poeta
E o esfomeado
Estraçalhando
Uma sereia bonita
Despedaçando o sonho
Prá cada lado….

Versão
Às vezes loira, mulher da cintura para cima, peixe da cintura para baixo, que fica sobre um rochedo, cantando, seduz o homem que passa, marinheiro ou viajante, que, ao acompanhá-la para o fundo das águas, morre afogado.

Ipupiara

Igpupiara ou Hypupiara (do tupi ïpupi’ara, “monstro marinho”), segundo os tupis do atual litoral brasileiro no século XVI, era um monstro marinho e antropófago.

“Neste sítio, no ano de 1564, a linda escrava índia Irecê ao ir à praia a noite, para um de seus encontros com o jovem Andirá, que vinha ao continente de canoa, deparou com um animal marinho gigantesco, com cerca de três metros de altura, com uma grande cabeça, bigode, braços longos, dentes pontiagudos e pés de barbatanas. Irecê encontrou a canoa de seu amado no mar, vazia.
Esse animal, descrito como a Curupira – o fantasma do mar – foi morto pelo capitão Baltazar Ferreira assistente do Capitão-Mór, que acudiu ao clamor de Irecê e o feriu com uma estocada de espada, tombando-o mortalmente. Os índios identificaram o animal como sendo Ipupiara o demônio da água. Diziam que ele habitava o espaço entre a velha “Casa de Pedra” (primeira construção de alvenaria do Brasil) e a Praia de São Vicente (Gonzaguinha). O fato, misto de horror, teria sido comentado por todo o Brasil e até por estrangeiros de vários paises.
Entretanto, ninguém jamais falou da única vítima presumível do Ipupiara o vicentino Andirá, que deixou para trás sua canoa solitária à beira mar e o coração partido de Irecê. Estudiosos e historiadores entendem que o tal monstro poderia ser um leão marinho, desviado pelas águas frias do inverno que, desavisado, veio parar nas praias brasileiras.

Uma crônica de Pero de Magalhães Gândavo, publicada em 1575, conta que em 1564, matou-se na praia da Capitania de São Vicente, a primeira vila brasileira, (atual estado de São Paulo, Brasil) um ser sobrenatural.
Diz Gândavo:
Foi algo tão novo, e pouco corriqueiro aos olhos humanos, a visão daquele feroz e espantoso monstro marinho, que nesta Província mataram no ano de 1564. Ainda que haja relatos sobre ele pelo mundo afora, não deixarei de contar aqui novamente, relatando na íntegra tudo o que aconteceu. A maior parte das imagens – ou quase todas – que fizeram mostrando o horrendo aspecto do monstro, não mostram como ele realmente era. Conta-se como se deu sua morte de diferentes maneiras, sendo a verdade apenas uma, a qual é a seguinte:

“Na Capitania de São Vicente, tarde da noite, quando todos começavam a adormecer, saiu para um passeio noturno uma índia, escrava de um capitão. Quando a índia lançou os olhos a uma várzea junto ao mar, viu nela andando este monstro. Movia-se de um ponto a outro, com passos e trejeitos incomuns, e dando gritos horríveis de quando em quando.
Espantada e quase fora de si, a índia foi até o filho do capitão, cujo nome era Baltasar Ferreira. Disse-lhe o que havia visto, acreditando ser alguma visão diabólica. Mas o filho do capitão, como era hábito dos brancos – que desconfiavam do que os índios lhes diziam -, não deu crédito às palavras da escrava índia. Ainda deitado em sua cama, mandou-a sair novamente para que olhasse novamente a criatura e visse que não era o que ela pensava. A índia obedece sua ordem. Saiu e voltou mais assustada, dizendo e repetindo outra vez que andava por ali uma coisa tão feia que só podia ser o demônio.
Então, Baltasar Ferreira levantou-se rapidamente, pegando em uma espada que tinha próximo da cama. Vestindo apenas a roupa com a qual dormia, saiu porta afora, certo de que talvez fosse apenas alguma onça ou outro animal da terra, certo de que a índia tinha se equivocado.
Olhando para o lugar que a índia lhe apontava, viu pouco nítido o vulto do monstro ao longo da praia, mas sem ter certeza do que realmente era, pois estava muito escuro. O animal que avistava era muito diferente dos que conhecia. Aproximando-se para vê-lo melhor foi visto pelo monstro que levantou a cabeça e, assim que o viu, começou a caminhar em direção ao mar do qual viera. Foi quando Baltasar percebeu que era um animal marinho.
Antes que o monstro conseguisse voltar ao mar, Baltasar colocou-se diante dele. O monstro vendo que ele bloqueava seu caminho levantou-se, ficando de pé como um homem, apoiado nas barbatanas de seu rabo. Baltasar acerta-lhe com a espada na barriga e desvia-se rapidamente, escapando de ficar por debaixo do monstro, que caía no lugar onde encontrava-se o rapaz. Escapou de ser esmagado, mas não do grande jorro de sangue que saiu da ferida e acertou-lhe no rosto, quase cegando-o. O monstro, ferido e gritando, arrastou-se com a boca aberta, pronto a cravar unhas e dentes em seu atacante. Baltasar dá-lhe outro golpe profundo na cabeça, ficando o monstro já muito débil. Tenta novamente chegar ao mar.
Ipupiara sendo morto por Baltazar Ferreira, em ilustração do livro História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo.
Ipupiara sendo morto por Baltasar Ferreira, em ilustração do livro História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo.
É então que aparecem alguns escravos alarmados pelos gritos da índia, que estava a ver tudo. Aproximando-se do monstro o encontraram já quase morto, levando-o à povoação onde, no dia seguinte, ficou exposto aos olhos de toda a gente da terra.
Baltasar mostrou-se um bravo homem neste combate – era considerado por todos da terra como um rapaz muito esforçado. Saiu muito perturbado e desorientado desta batalha, sem alento com a visão deste animal medonho. Quando o pai perguntou-lhe o que aconteceu, não soube responder. Ficou assustado, sem falar coisa alguma por muito tempo.”

O retrato deste monstro é o que se vê na imagem. Tinha uns 15 palmos de comprimento, cheio de pelos pelo corpo, e no focinho algo como cerdas grandes formando um bigode.
Os índios locais chamam-lhe, em sua língua, Ipupiára, que quer dizer demônio d’água. Já foram vistos outros como este nestas partes, mas muito raramente. Também devem existir muitos outros monstros diferentes que se escondem no abismo deste imenso e espantoso mar, não menos estranhos e admiráveis. Tudo é possível. Pois os segredos da natureza não foram todos revelados, por mais que se possa negar e achar impossíveis certas coisas das quais nunca se ouviu falar.
– Adaptação livre do original “Do monstro marinho que se matou na Capitania de Sam Vicente, anno 1564”, do livro História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo (1575).

Outros cronistas, como o jesuíta Fernão Cardim ou Jean de Léry, relatam histórias contadas pelos nativos sobre encontros com o Ipupiara, ou outros seres marinhos identificados posteriormente com ele.
Fernão Cardim dizia que tais criaturas tinham boa estatura, mas eram muito repulsivas. Matavam as pessoas abraçando-as, beijando-as e apertando-as até as sufocar. Esses monstros, também devoravam os olhos humanos, narizes, ponta dos dedos dos pés e das mãos e as genitálias. Existiam também na forma feminina, possuindo cabelos longos e eram muito formosas. O Ipupiara era, segundo estes cronistas, um ser “bestial, faminto, repugnante, de ferocidade primitiva e brutal”.

Jean de Léry, em sua obra Viagem À Terra do Brasil, conta algo semelhante, que ele ouviu diretamente dos índios Tupinambás da Guanabara no século 16:

(…) Não quero omitir a narração que ouvi de um deles de um episódio de pesca. Disse-me ele que, estando certa vez com outros em uma de suas canoas de pau, por tempo calmo em alto mar, surgiu um grande peixe que segurou a embarcação com as garras procurando virá-la ou meter-se dentro dela. Vendo isso, continuou o selvagem, decepei-lhe a mão com uma foice e a mão caiu dentro do barco e vimos que tinha cinco dedos como a de um homem. E o monstro, excitado pela dor pôs a cabeça fora d’água e a cabeça que era de forma humana, soltou um pequeno gemido (…).

Irecê ia encontrar o amante na praia e viu a aparição do monstro como um castigo. O ipupiara, aparentemente, já matara seu amante, Andirá. Fugiu apavorada, mas no caminho encontrou o capitão Baltasar Ferreira que enfrentou o monstro e o abateu a golpes de espada (era o representante em São Vicente do capitão-mor Pedro Ferras Barreto, que residia em Santos). Segundo o cronista, o monstro tinha “quinze palmos de comprido” (3,30 metros) e era “semeado de cabelos pelo corpo e no focinho tinha umas sedas mui grandes como bigodes”.

Mais tarde, esse ser se confundiu com a boiúna ou cobra-grande das lendas amazônicas, uma sucuri negra, gigantesca e voraz que também podia tomar forma de embarcação. Também conhecida, a partir do século XVIII, como mãe-d’água, passou a ser também imaginada como mulher.

É só no século XIX que aparece o nome enganosamente indígena de uiara ou iara, romanticamente imaginada como uma versão tropical e indígena das janas, nixes e loreleis do folclore europeu, a arrastar os incautos para a morte nos igarapés com sua beleza ou seu canto.

Mapinguari

No interior da Floresta Amazônica vive um monstro terrível, um gigante faminto coberto de pelos, com um olho só e uma bocarra imensa no lugar do umbigo.
De braços longos e garras afiadas, vaga pela mata em busca de animais e pessoas para devorar!
Acredita-se que seja o megatério, ou preguiça-gigante, um animal pré-histórico que vivia nessas terras até 10 mil anos atrás que possui um esqueleto no Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista.
Emite um gritos semelhantes ao grito dos caçadores. Se alguém responder, vai ao encontro do desavisado. É selvagem e não teme caçadores, é capaz de dilatar o aço quando sopra no cano da espingarda.
Os ribeirinhos amazônicos contam histórias de grandes combates entre ele e valentes caçadores. Os caçadores que conseguem sobreviver, muitas vezes ficam aleijados ou com terríveis cicatrizes no corpo para o resto da vida.
Quando anda pela mata, vai gritando, quebrando galhos e derrubando árvores, deixando um rastro de destruição. Só foge quando vê um bicho-preguiça.

Versões:
1- Os caboclos contam que dentro da floresta vive um gigante peludo com um olho na testa e a boca no umbigo, coberto de pelos, usa uma armadura feita do casco da tartaruga.

2- Sua sua pele é igual ao couro de jacaré.

3- Alguns índios ao atingirem uma idade mais avançada evoluiriam e transformariam-se em Mapinguari e passariam a habitar o interior das florestas passando a viver apenas no seu interior e sozinhos.

4- Tem pés têm o formato de uma mão de pilão.

5- Só anda pelas florestas de dia, guardando a noite para dormir.

6- Ele só aparece nos dias santos ou feriados.

Matinta Pereira

Matinta, Mati-tapereira, Matim-taperê, Matinta Pereira, Matinta Perêra, Matinta Perera, Mati-Taperê, Mat-taperê, Matim-Taperê, Titinta-Pereira.

Ocorre no Sul, Centro e Norte e Nordeste do Brasil. Para alguns é uma variação da lenda do Saci.

À noite, um assobio agudo perturba o sono das pessoas e assusta as crianças, ocasião em que o dono da casa deve prometer tabaco ou fumo.A Matinta Perera é uma ave de vida misteriosa e cujo assobio nunca se sabe de onde vem. Dizem que ela é o Saci Pererê em uma de suas formas.

Uma forma de não ser perturbado pela Matinta seria oferecendo a ela, no dia seguinte, algum tipo de alimento e tabaco (fumo). Desta forma ela deixaria de assustar as pessoas da casa, parando de assoviar. Caso contrário, ficaria assoviando todas as noites nas proximidades da casa.

Para se descobrir quem é a Matinta Pereira, a pessoa ao ouvir o seu grito ou assobio deve convidá-la para vir à sua casa pela manhã para tomar café. No dia seguinte, a primeira pessoa que chegar pedindo café ou fumo é a Matinta Pereira. Acredita-se que ela possua poderes sobrenaturais e que seus feitiços possam causar dores ou doenças nas pessoas.

Versões

1- Também assume a forma de uma velha vestida de roupa escura e velha, com o rosto parcialmente coberto. Prefere sair nas noites escuras, sem lua. Quando vê alguma pessoa sozinha, ela dá um assobio ou grito estridente para amedrontar as pessoas, cujo som lembra a palavra: “Matinta Perêra…”

2- Para os índios Tupinambás esta ave, era a mensageira das coisas do outro mundo, e que trazia notícias dos parentes mortos. Era chamada de Matintaperera.

3- Há na região Norte, sociedades secretas femininas chamadas de Tapereiras, que o povo chama de Mati-taperereiras. Às vezes usam do medo que provocam na população para obterem vantagens. Conta-se que garotos de 10 a 14 anos, como serventes e nas noites sem luar, saem a gritar imitanto a Matinta-pereira. O povo assustado fecha as portas e janelas, e todos se calam para não atrair o “demônio” para suas casas.

4- Na região Norte, especialmente Pará, a Matinta Pereira, seria um pequeno índio, de uma perna só e com um gorro vermelho na cabeça, semelhante ao Saci, que não evacua nem urina, sujeito a uma horrível velha, a quem acompanha às noites de porta em porta, a pedir tabaco. A velha que o acompanha canta, ao som do canto de um pássaro noturno chamado Matin-ta-perê.

5- Em Pernambuco há uma referência a uma ave noturna, cujo canto se assemelha a um grito, muito temido por todos, por ser considerado de mau agouro. É a mesma Matinta, mas esta parece dizer: “Saia-Dela”.

6- A velha é uma pessoa do lugar que carregaria a maldição de “virar” Matinta Perera, ou seja, à noite transformar-se neste ser indescritível que assombra as pessoas. A Matinta Perera pode ser de dois tipos: com asa e sem asa. A que tem asa pode transformar-se em pássaro e voar nas cercanias do lugar onde mora. A que não tem, anda sempre com um pássaro, considerado agourento, e identificado como sendo “rasga-mortalha”. Dizem que a Matinta, quando está para morrer, pergunta: “Quem quer? Quem quer?” Se alguém responder “eu quero”, pensando em se tratar de alguma herança de dinheiro ou jóias, recebe na verdade a sina de “virar” Matinta Perera.

7- Ela se apresenta como sendo uma velha, geralmente acompanhada de um pássaro. O pássaro assobia, à noite, para perturbar o sono das pessoas e assustar as crianças.

8- Há os que dizem que já tiveram a infeliz experiência de se deparar com a visagem dentro do mato. A maioria a descreve como uma mulher velha com os cabelos completamente despenteados e que tem o corpo suspenso, flutuando no ar com os braços erguidos. Ao ver uma Matinta, dizem os experientes, não se consegue mover um músculo sequer. A pessoa fica tão assustada que fica completamente imóvel! Paralisada de pavor!

9- Esta é provávelmente uma adaptação da lenda do Saci. Inclusive o pássaro no qual ela se transforma, chamada Matin-ta-perê, que além de ser preta tem o costume de andar pulando numa perna só, é a mesma que entre os Tupinambás, com o tempo se transformou no moleque Saci.

10- Em algumas regiões do Norte do Brasil, a Matinta aparece com um pássaro escuro que a ajuda a assustar as pessoas, assoviando de forma assustadora e levando azar por onde passa. Em outras versões da lenda, ela possui a capacidade de se transformar em um pássaro.

11- É uma ave de vida misteriosa e cujo assobio nunca se sabe de onde vem. Dizem que ela é o Saci Pererê em uma de suas formas. Pássaro, chamado de Mati-taperê, ou Sem-fim, ou Peitica, como é conhecido no Nordeste, cujo canto melancólico, ecoa em todas as direções, não permitindo sua localização, é a figura que encarna o mito.

12- Aparece de noite nas vilas, cidades, povoados, atravessando o espaço com seu grito arrepiante. Ninguém sabe onde a Matinta mora. É crença entre paraenses e amazonenses que existem velhas com o poder de transformar-se em Matintas. Assim, ouvindo seu grito os moradores prometem fumo em voz alta. Pela manhã, é quase certo que uma velha mendiga irá aparecer pedindo esmolas. É a Matinta que vem cobrar a promessa feita.

13- Em alguns lugares, se apresenta como um velho, a cabeça amarrada com um pano ou lenço, como se fosse uma pessoa doente, indo de porta em porta, também a pedir tabaco.

14- Na linguagem selvagem, o Nome Maty-Taperê, significa “O Pequeno que vive nas Ruínas, ou Taperas”. Para eles, o Maty-Taperê é um gênio maléfico, refugiado nas aldeias abandonadas, e que perseguia a quem, imprudente, delas se aproximava. Acreditavam que o Maty-Taperê tomava a forma de um pequeno pássaro, como uma andorinha, e assim se disfarçava.

15- Dizem que se trata de uma feiticeira que usa da magia para se transformar em matinta. Os mais velhos diziam que a sina de transformação seria hereditária, ou seja passaria de mãe para filha. No

16- Se transforma em uma coruja rasga-mortalha ou num corvo.

17- Se veste de uma roupa preta que lhe cobre todo o corpo dando-lhe nos braços uma espécie de asa para que possa planar sobre as casas.

Um ponto em comum na maioria das versões encontradas, é que se trata de um indivíduo nômade, que anda a gritar, ou com seu assobio de pássaro, ou a tocar uma flauta, sempre a pedir tabaco. No Tupi encontramos Mata como significado de coisa grande, e mati para coisa pequena. No nosso caso da Matinta-Pereira, o mati significa um ente misterioso, nem ave, nem quadrúpede, nem serpente, mas tendo de todos estes alguma coisa. Mora nas ruínas, junto com onças, corujas e cobras.

Aprisionando a Matinta

Diz ainda a lenda que, a única forma de aprisionar a Matinta é executando alguns rituais: enterrar no chão (local onde passa a Matinta), à meia-noite, uma tesoura aberta com um terço e uma chave. Quando a Matinta passar por cima ficará presa.

Com uma tesoura, uma chave comum, um rosário bento e uma vassoura virgem. A chave deve ser enterrada e a tesoura fincada em cima do local, o rosário se põe por cima da tesoura. Toda matinta que passar por ali ficará presa, mas depois que ela for libertada deve-se varrer o local com a vassoura para que a sina não se espalhe.

Ela não pode ouvir o nome de qualquer deus enquanto estiver transformada, pois se não o feitiço acaba, já que, sendo uma bruxa, não tem uma religião.

Cancioneiro popular

O repentista Teobaldo Patacho, mestre do cancioneiro popular paraense, transforma em versão da canção “Paixão Cabeluda” (Do álbum “Pára no Pará”, de 1987) a lenda regional do casamento atribulado entre a atormentada Matinta e o deslizante Boto. Segundo as versões mais populares, a união foi desfeita pelo boto, por não aturar o cheiro de cachaça e de fumo com que a esposa chegava em casa todas as noites, mas também é comum se encontrar versões relegando à jovem Matinta o fim das núpcias, dado que o Boto era muito afeito a procurar jovens donzelas à beira do Rio Guamá.

Mitos e Lendas: Parte 1, Parte 3, As 10 mais legais!


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