O Mito e a Lenda, Conheça as Criaturas Mitológicas Brasileiras – Parte I

O Mito e a Lenda, Conheça as Criaturas Mitológicas Brasileiras – Parte I

O Mito e a Lenda são as formas encontradas na sabedoria popular para imprimir conceitos e cuidados relativos à vida e convivência, é a sabedoria tácita passada oralmente de pais para filhos.

Bicho Papão

Bicho Papão

Esse “monstro” está presente no imaginário de quase todos os povos do mundo. No Brasil, é conhecido em todas as regiões.

Aterroriza as crianças malcriadas e mal-educadas, tem aparência assustadora: mostro muito grande e gordo com os olhos vermelhos ou ter forma parecida com a da Cuca, ou ainda ter poder de mutação e tomar a forma de vários animais.

Aparece no quarto das crianças desobedientes, fica embaixo da cama, atrás da porta ou dentro do armário para assustá-las enquanto dormem.

Come crianças teimosas, em algumas versões, permanece no telhado das casas, analisando o comportamento das crianças da residência.

Cuca

Cuca

É uma bruxa velha muito feia com cabeça de jacaré, unhas imensas e voz assustadora que rapta as crianças malcriadas e desobedientes.

Dorme uma vez a cada sete anos.

Acredita-se que teve origem no folclore galego-português baseada na criatura “Coca”, que significa “crânio, cabeça”, um fantasma ou um dragão comedor de crianças desobedientes que fica à espreita nos telhados das casas.

Homem do Saco

Homem do Saco

Leva um grande saco onde aprisiona crianças desobedientes.

Uma das canções de ninar mais conhecidas no Brasil é a “nana neném” que faz referência ao Bicho-papão e a Cuca.

“Nana neném
Que a Cuca vem pegar
Papai foi pra roça
Mamãe no cafezal
Bicho-papão
Saia do Telhado
Deixa o neném
dormir sossegado”

Em Portugal existe canção de ninar sobre o Bicho Papão:

“Vai-te papão, vai-te embora
de cima desse telhado,
deixa dormir o menino
um soninho descansado.”

Boitatá

Boitatá

Boitatá, em Tupi-Guarani, significa cobra (boi) de fogo (tata), encontra-se num texto do século XVI do Padre Jesuíta José de Anchieta, baseado em relato dos índios.

“Há também outros (fantasmas), máxime nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados “baetatá”, que quer dizer cousa de fogo, o que é o mesmo como se se dissesse o que é todo de fogo. Não se vê outra cousa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza.” (In: Cartas, Informações, Fragmentos Históricos, etc. do Padre José de Anchieta, Rio de Janeiro, 1933)

Dependendo da região do Brasil, o nome e a versão pode variar: Baitatá, Biatatá, Bitatá e Batatão.
Uma grande cobra vivia adormecida num imenso tronco e ao despertar faminta, resolveu comer os olhos dos animais, isso fez emitir uma grande e intensa luz, tornando-se uma cobra de fogo. Ao proteger a floresta, ela assusta as pessoas que vão às matas durante à noite.

No norte e nordeste, a imensa cobra de fogo vive nos rios e sai no momento em que há invasores nas florestas para queimá-los. Segundo alguns, é conhecido como “Alma dos Compadres e das Comadres”, e representa almas penadas malignas que passam queimando tudo.

No sul, a versão que prevaleceu vem da história bíblica do Dilúvio. Nela, muitos animais morreram e as cobras que sobreviveram tiveram como castigo o fogo, que aparece na barriga de cada uma as quais se tornam iluminadas e, ao mesmo tempo, transparentes.

Há ainda uma versão em que não é uma grande cobra, e sim um touro feroz que solta fogo pela boca. Em Santa Catarina, o touro de “pata como a dos gigantes e com um enorme olho bem no meio da testa, a brilhar que nem um tição de fogo”.

Uma gigantesca cobra de fogo ondulada, com olhos que parecem dois faróis, couro transparente, que cintila nas noites em que aparece deslizando nas campinas e na beira dos rios, pode se transformar em uma tora em brasa, para assim queimar e punir quem coloca fogo nas matas, que quem se depara com o boitatá geralmente fica cego, pode morrer ou até ficar louco. Assim, quando alguém encontrá-lo, deve ficar parado, sem respirar e de olhos bem fechados.

Há muito tempo atrás, uma noite se prorrogou muito parecendo que nunca mais haveria luz do dia.

Era uma noite muito escura, sem estrelas, sem vento, e sem barulho algum dos bichos da floresta, era um grande silêncio.

Os homens ficaram dentro de casa e estavam passando fome e frio.

Não havia como cortar lenha para os braseiros que mantinham as pessoas aquecidas, nem como caçar naquela escuridão.

Era uma noite sem fim. Os dias foram passando e a chuva começou, choveu muito, esta chuva inundou tudo e muitos animais acabaram morrendo.

Uma grande cobra que vivia em repouso num imenso tronco despertou faminta e começou a comer os olhos dos animais mortos que brilhavam boiando nas águas.

Alguns dizem que eles brilhavam devido a luz do último dia em que os animais viram o sol.

De tanto olhos brilhantes que a cobra comeu, ela ficou toda brilhante como fogo e transparente.

A cobra se transformou num monstro brilhante, o Boitatá, que assusta as pessoas quando elas entram na mata à noite.

Mas muitos acreditam que o Boitatá protege as matas contra incêndios.

Boto ou Boto cor de Rosa

Boto ou Boto cor de Rosa

Na Região Norte do Brasil, nas regiões do Amazonas, tem origem indígena, geralmente para justificar gravidez de mulher solteira.

Durante as festas juninas ou noites de lua cheia (magia de transformação) ele sai das águas do rio Amazonas, aparece transformado em um rapaz elegante, belo, de fala sedutora, educado, meigo, vestido de branco e sempre com um chapéu que cobre a grande narina (não fica narigudo, é o respiratório, o espiráculo do “animal” que fica à mostra) que não desaparece do topo de sua cabeça com a transformação.

Ele seduz moças desacompanhadas, levando-as para o fundo do rio e, em alguns casos engravidando-as.

Escolhe a moça solteira mais bonita da festa.

Costuma virar canoas que viajam à noite, para capturar moças.

Na manhã do dia seguinte o belo homem volta a se transformar em Boto.

Auxilia os pescadores, conduz em segurança canoas durante as tempestades e ajuda a retirar do rio pessoas que estão se afogando.

Quando uma mulher tem um filho de pai desconhecido, é “filho do Boto”.

Quando um rapaz desconhecido aparece em uma festa usando chapéu, pede-se que ele o tire para garantir que não tem um respiratório.

Cabe às moças que não acreditem em rapazes que se aproximam querendo namorar, pois pode ser o Boto Rosa disfarçado!

As mães ficam de olho nas filhas para que não namorem nenhum rapaz em festas.

Moças desaparecidas podem ter sido raptadas, capturadas por ele e estar no fundo do rio.

A pessoa que comer a carne de Boto ficará louca e enfeitiçada.

 

Caipora ou Caipora do Mato

Caipora ou Caipora do Mato

Muitas tribos indígenas Tupi-guarani, no interior do Brasil, função e dom controlar e guardar as florestas. Do tupi, a palavra “caipora” (caapora) significa “habitante do mato”

Representado tanto por uma mulher, índia como por um homem matuto, baixo, que aparece montado em um caititu, porco selvagem ou porco-do-mato, era conhecido como Caiçara, entidade que protegia as caças, animais de pele, couro ou chifre, como porcos, tamanduás, cobras, tatus, veados, etc.

Um menino moreno, parecido com um indiozinho de olhos e cabelos vermelhos, pés virados para trás. Assusta os caçadores que matam esses animais de forma cruel e predatória. Muitas fêmeas são mortas quando estão prenhas e esses homens, insensíveis, não têm a mínima compaixão por esses animais, ou ainda, que caçam além das suas necessidades.

Anão, cabelos vermelhos, orelhas pontudas, dentes esverdeados, anda nú pela floresta e domina todos os animais, existem versões em que o corpo é todo vermelho, outras é verde e ainda de pele escura e muito peludo, corpo coberto de pelos, um pequeno caboclo, com um olho no meio da testa, coxo e que atravessa a mata montado num porco selvagem, um homem peludo com vasta cabeleira, ou tem uma perna só como o Saci.

Em outras versões possui uma lança, um cachimbo, ou que possui apenas um olho, ou que carrega uma vara. Usa conhecimentos sobre a vida na floresta para fazer armadilhas e destruir armas.

Gosta de fumo e bebida e alguns caçadores podem agradá-lo em busca de boa caçada. Pode fechar acordos de caça, mas os presentes não são certeza de segurança, já que ele pode ser bem traiçoeiro. Aos domingos, dias santos e feriados o Caipora age com mais força e de maneira mais intensa.

Para agradar, deve-se deixar em um tronco de uma árvore fumo de rolo e dizer: “Toma, Caipora, deixa eu ir embora”

Prega peças e persegue os mal intencionados, bate em seus cães farejadores, assobia, estala galhos, solta uivos, gritos, sons da floresta, som estridente, causando arrepios, pavor e assombro.

Pode espantar animais para longe dos caçadores ou ressuscitar os que foram mortos sem sua permissão, apenas falando para que o animal ressuscite. Modifica caminhos e rastros para que o caçador se perca

Por ser muito rápido, às vezes sua presença só é sentida como uma rajada de vento no mato.

“Ser caipora é o mesmo que ter azar, ter sorte madrasta, ser perseguido pelo destino (…).
Para os tupis, o caapora é representado ora como uma figura de um pé só, à maneira do saci, ora com os pés virados para trás, simbolizando por isso, como diz João Ribeiro, ‘a pessoa que chega tarde e nada alcança”
Luís da Câmara Cascudo

Em algumas regiões do Brasil Caipora é conhecido como Curupira, em outras é um parente, ainda em outras é derivado do Curupira e tem o mesmo desejo de acabar com os caçadores que maltratam animais nas florestas e protegê-las.

 

Curupira

Curupira

Pequeno índio é forte e muito esperto. Curupira (kuru’pir), significa “corpo de menino”. Protetor das plantas, árvores e animais da floresta contra caçadores, lenhadores e outros que destroem as matas de forma predatória.

Para assustar emite sons e assovios agudos, cria imagens ilusórias e assustadoras, seus pés virados para trás despistam os perseguidores, deixando pegadas e rastros falsos.

Adora descansar nas sombras das mangueiras. Costuma também levar crianças pequenas para morar com ele nas matas. Após encantar as crianças e ensinar os segredos da floresta, devolve os jovens para a família, após sete anos.

Adora pregar peças naqueles que entram na floresta com encantamentos e ilusões, deixa o visitante atordoado e perdido, sem saber o caminho de volta, enquanto observa e segue a pessoa, divertindo-se.

Presentes: alimentos, flechas e fumo. Uma “criança” travessa que gosta muito de fumar e de beber.

O padre jesuíta espanhol José de Anchieta (1534-1597) escreveu em São Vicente, em 30 de maio de 1560: “demônio que acometem os índios”:

“É coisa sabida e pela boca de todos corre que há certos demônios, chamam Curupira, que acontece aos índios muitas vezes no mato, dão-lhe açoites, machucam-nos e matam-nos.
São testemunhos disso os nossos irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles.
Por isso, costumam os índios deixar em certo caminho, que por ásperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras coisas semelhantes, como uma espécie de oferenda, rogando fervorosamente aos Curupiras que não lhes façam mal.”

Do Maranhão para o sul até o Espírito Santo, seu apelido é Caipora. Eduardo Galvão informa:

“Curupira é um gênio da floresta.
Na cidade ou nas capoeiras de sua vizinhança imediata não existem currupiras.
Habitam mais para longe, muito dentro da mata.
A gente da cidade acredita em sua existência, mas ela não é motivo de preocupação porque os currupiras não gostam de locais muito habitados.”

“Gostam imensamente de fumo e de pinga.
Seringueiros e roceiros deixam esses presentes nas trilhas que atravessam, de modo a agradá-los ou pelo menos distraí-los.
Na mata, os gritos longos e estridentes dos Currupiras são muitas vezes ouvidos pelo caboclo.
Também imitam a voz humana, num grito de chamada, para atrair vítimas.
O inocente que ouve os gritos e não se apercebe que é um Currupira e dele se aproxima perde inteiramente a noção de rumo.”

Versões:

O curupira e o caipora são muitos semelhantes, a diferença marcante é que o segundo possui os pés normais.
Justo e compreensivo, força e velocidade sobre humana, pode transformar o predador em presa.

Ponto fraca curiosidade, para escapar dele basta fazer um novelo com cipó e esconder bem a ponta. Enquanto fica entretido com o novelo a pessoa foge!

 

Saci ou Saci Pererê

Saci ou Saci Pererê

Vem termo tupi sa’si que representa o nome de um pássaro conhecido por: “Saci”, “Matimpererê” ou “Martim-Pererê”, em tupi: matintape’re.

Criado por índios da região sul/sudeste do Brasil, desde os tempos do Brasil Colônia, brincalhão e travesso, se diverte brincando com pessoas e animais, troca potes de sal por açúcar, some com dedais das costureiras, assobia para assustar viajantes, dá nó nas crinas e rabos dos cavalos, assustando galinhas, esconder brinquedos, soltar animais dos currais, derramar sal nas cozinhas, fazer o leite azedar e provocando todo tipo de bagunça dentro das casas.

Costuma pedir fogo aos viajantes na beira da estrada.

Pode se transforma numa ave chamada Mati-taperê, ou Sem-fim, ou ainda Peitica, como é chamada no Nordeste, possui um canto melancólico que ecoa em todas as direções, não permitindo sua localização.

A touca vermelha dá poderes especiais ao saci, como sumir e aparecer onde quiser. Quem roubar seu gorro mágico, pode fazer qualquer pedido e será prontamente atendido.

Quando está de bom humor, pode ajudar a a encontrar coisas escondidas.

Versões:
Já se chamou “Caa Cy Perereg”
Índio de cabelos vermelhos, sem pêlos pelo corpo, três dedos em cada mão, domina insetos, mosquitos, pernilongos, pulgas.

Cabelos vermelhos confunde os caçadores e destruidores das matas ao ficar invisível.

Um negro com cachimbo, pito na boca (época da escravidão os contadores de histórias adaptaram). Perdeu a perna jogando capoeira, conhece plantas medicinais.

Quem entra na mata procurando pelas ervas deve pedir autorização ou será vítima das traquinagens. Conhece técnicas de manuseio e preparo das plantas medicinais, guarda as ervas sagradas.

Dizem que Caipora é pai do Saci. Nascem nos gomos dos bambus, ao morrer viram cogumelos venenosos ou uma orelha de pau, demoram 7 anos para nascer e vivem 77 anos

Tipos de Sacis: o Pererê é preto; o Trique é mais claro e brincalhão; e o Saçurá tem olhos vermelhos.

Um menino negro, com uma perna só, gorrinho vermelho (de origem europeia, inspirado em toucas romanas ou usadas pelos Trasgos) e um cachimbo. Tem uma das mãos furadas por carregar brasas do cachimbo.

Redemoinho, poeira ou folhas girando em um pé de vento é uma de suas formas de locomoção.

Tem medo de água. Pode ser atrasado por cordas e barbantes com nós, pois sempre para pra desatar. Pode ser capturado jogando uma peneira no redemoinho e colocando numa garrafa de cachaça com uma cruz desenhada na tampa ou rolha.

Fuma cachimbo e solta fumaça pelos olhos.

Grita pelo nome de pessoas conhecidas e foge, escondendo-se e dando gargalhadas.

Negro e endiabrado, com duas pernas e um rabo, perde a perna na influência africana, ganha o cachimbo e o gorro por influência portuguesa.

Curumim endiabrado, com duas pernas, cor morena, além de possuir um rabo típico.

 

Capelobo ou Cupelobo

Capelobo ou Cupelobo

Indígenas da região Norte e Nordeste do Brasil, principalmente no Maranhão, Amazonas e Pará. Acredita-se que o nome seja a mistura de capê (osso quebrado, torto ou aleijado) e lobo.

Seu corpo é uma mistura de ser humano com animais, possui cabeça e focinho de tamanduá-bandeira (ou de cachorro ou de anta), corpo humano forte, patas redondas (formato de fundo de garrafa) muitos pelos no corpo.

É muito rápido e vive correndo pelas matas próximas aos rios e em regiões de várzeas, ativo durante a noite e madrugada, perambula, rodeia barracões, casas e acampamentos no meio da mata.

Emite sons assustadores (gritos altos), sai à caça noturna e se alimenta de cães e gatos, principalmente os que acabaram de nascer. Ataca também caçadores, matando e bebendo o sangue.

Deixa pegadas na forma de fundo de garrafa e solta gritos medonhos, quando encontra um humano ou animais maiores que cães e gatos, abraça, fura o crânio, introduz o focinho e chupa o cérebro ou bebe o sangue.

Aparece em 2 formas distintas:

Forma animal – parecido com uma anta maior, mais rápido, com focinho mais parecido com o de um cão, anta, tamanduá ou porco e longa crina. Peludo e muito feio;

Forma humana – corpo metade humanóide, com focinho de tamanduá, e corpo arredondado.

Para matá-lo só existe uma forma: um tiro certeiro em seu umbigo.

Dizem que é uma espécie de lobisomem regional. Em algumas tribos indígenas do região do rio Xingu, acredita-se que alguns índios possuem a capacidade de se transformar em Capelobo.

Segundo Câmara Cascudo

“É um animal fantástico, de corpo humano e focinho de anta ou de tamanduá, que sai à noite para rondar os acampamentos e barracões no interior do Maranhão e Pará.
Denuncia-se pelos gritos e tem o pé em forma de fundo de garrafa. Mata cães e gatos recém-nascidos para devorar.
Encontrando bicho de porte ou caçador, rasga-lhe a carótida e bebe o sangue. Só pode ser morto com um tiro na região umbilical.
É o lobisomem dos índios, dizem. No rio Xingu, certos indígenas podem-se tornar capelobos.”

Segundo S. Fróis Abreu

“Acreditam que nas matas do Maranhão, principalmente nas do Pindará, existe um bicho feroz chamado cupelobo…
Um índio timbira andando nas matas do Pindará chegara a ver um desses animais que dão gritos medonhos e deixam um rastro redondo, como fundo de garrafa.
O misterioso animal tem corpo de homem coberto de longos pêlos; a cabeça é igual à do tamanduá-bandeira e o casco com fundo de garrafa.
Quando encontra um ser humano, abraça-o, trepana o crânio na região mais alta, introduz a ponta do focinho no orifício e sorve toda a massa cefálica:
‘Supa o miolo’, disse o índio.”

Segundo Carlos de Lima

“O capelobo parece-se com a anta, mas é mais ligeiro do que ela, e tem cabelos longos e negros e as patas redondas.
Sua caçada é feita à noite, quando sai em busca de animais recém-nascidos para satisfação de sua fome inesgotável.
Se apanha qualquer ser vivente, homem ou animal, bebe-lhe o sangue com a sofreguidão dos sedentos.
Dando gritos horríveis para apavorar os que encontra, que, paralisados de medo, têm o miolo sugado até o fim através da espécie de tromba que ele introduz no crânio da pobre vítima.
Esses gritos, que no meio da mata se multiplicam em todas as direções, desnorteiam os caçadores e mateiros que assim vagam perdidos, chegando, às vezes, a enlouquecer.”

Lobisomem

Lobisomem

Uma aberração, criatura feroz, homem de dia e lobo nas noites de lua cheia que, condenado por castigo divino à transformação até o final de sua vida.

Versões:

Somente se transforma numa encruzilhada nas noites de sexta-feira e, ao amanhecer, retorna à encruzilhada para se transformar em homem novamente.

O oitavo filho, com aparência pálida, orelhas grandes e nariz avantajado, provavelmente se tornará lobisomem.

O sétimo filho de um casal em que os anteriores sejam todos mulheres, se transformará, em todas as noites de lua cheia, a partir da puberdade no 13º aniversário, retornando a forma humana pela manhã.

Só pode ser ferido por objetos e balas feitos de prata ou com fogo.
Prefere raptar bebês não batizados e, por isso, muitas famílias batizam suas crianças rapidamente.

 

Cobra Grande ou Boiúna

Cobra Grande ou Boiúna, Cobra Nonato ou Cobra Norato ou Cobra Honorato e Maria Caninana

Região amazônica, ribeirinhos, principalmente no estado do Pará, Norte do Brasil. Possíveis traços de origem europeia e africana.

A cobra grande deixou de viver na floresta e passou a habilitar o fundo dos rios, cresceu de forma desproporcional, um imenso animal que onde passa em terra firme e deixa seu rasto, o local se transforma em igarapé.

Uma índia que grávida da Boiúna (Cobra-grande, Sucuri), deu à luz a duas crianças gêmeas que na verdade eram

Cobras. O menino recebeu o nome de Honorato, e a menina, Maria Caninana.

Como as crianças nasceram cobras e a mãe delas não as queria, e foram jogadas no rio, mas como eram cobras não tiveram problemas para sobreviverem.

Maria era muito perversa e prejudicava os outros animais e pessoas, inclusive virando embarcações nos rios. Com tantas maldades sendo praticadas, Honorato que era do bem acabou por matá-la para pôr fim às suas perversidades.

Honorato tinha um coração bom e sempre visitava sua mãe, Maria, por sua vez, guardava rancor e nunca foi visitá-la.

Honorato sai algumas noites do rio e consegue assumir a forma de um belo rapaz, onde leva a vida de um humano normal em terra.

Versões:

Honorato, em algumas noites de luar, perdia o seu encanto e adquiria a forma humana transformando-se em um belo rapaz, deixando as águas para levar uma vida normal na terra.

Para que se quebrasse o encanto de Honorato era preciso que alguém tivesse muita coragem para derramar leite na boca da enorme cobra, e fazer um ferimento na cabeça até sair sangue. Ninguém tinha coragem de enfrentar o enorme monstro.

A questão é que com todos que ele falava, não tinham coragem pois se assutavam com a criatura no momento que ele se transformava.

Até que um dia um soldado de Cametá (município do Pará) conseguiu libertar Honorato da maldição, permitindo viver na terra com sua família.

Existiu em uma das tribo do Amazonas, uma mulher muito perversa que inclusive, devorava crianças. Para por fim a tantas dores causadas por ela, a tribo decidiu atirá-la no rio, pensando que ela morreria afogada e nunca mais viria a perseguir ninguém.

Porém, Anhangá, o gênio do mal, decidiu não deixá-la morrer e casou-se com ela, dando-lhe um filho. O pai transformou o menino em uma cobra, para que ele pudesse viver dentro do rio. Porém, logo a cobra começou a crescer e crescer.

O rio tornou-se pequeno para abrigá-la e os peixes iam desaparecendo devorados por ela. Durante a noite seus olhos iluminavam como dois faróis e vagavam fosforescentes por sobre os rios e as praias, espreitando a caça e os homens, para devorá-los. As tribos aterrorizadas, deram-lhe o nome de Cobra Grande.

Um dia a mãe da Cobra Grande morreu. Sua dor manifestou-se por um ódio tão mortal que de seus olhos brotavam flechas de fogo atiradas contra o céu e dentro da escuridão, transformavam-se em coriscos. Depois deste dia, ela se recolheu e dizem que vive adormecida debaixo das grandes cidades.

Contam também que ela só acorda para anunciar o verão no céu em forma de Serpentário, ou durante as grandes tempestades para assustar, com a luz dos relâmpagos, as tribos apavoradas.

Essa cobra é gigantesca e seu habitat é as profundezas dos rios ou dos lagos. Seus olhos são luminosos e aterrorizam as pessoas que a encontram.

A cobra grande foi responsável por criar parte dos rios. Ao se rastejar ela deixava sulcos gigantescos na terra, que com o tempo, se transformaram em rios caudalosos, como o Amazonas.

A cobra grande vive embaixo de uma cidade, seus olhos soltam flechas de ódio para o céu durante as tempestades, pode se transformar em embarcações ou outros seres.

Ao perceber que seus filhos eram “Cobras”, ela resolveu se aconselhar com um Pajé, e perguntou se devia matá-los ou jogá-los no rio. O Pajé, então respondeu que se os matasse ela morreria também. Então ela decidiu soltá-los no leito do rio Tocantins. No rio eles, como Cobras, se criaram.

Os irmãos gêmeos andavam sempre juntos e percorreram todos os rios da Amazônia.

Honorato só à noite transformava-se em gente, deixando à beira do rio, a monstruosa casca da cobra em que vivia.

Gostava muito de dançar. Era um moço alto e bonito.

Muitas vezes ia dormir em casa de sua mãe, e então, pedia encarecidamente a esta que, antes do galo cantar, fosse ela à beira do rio, onde estava sem ação o seu corpo de cobra e que, deitando-lhe um pouco de leite na boca, lhe desse uma cutilada que o fizesse sangrar. Feito isso, ficaria ele desencantado para sempre.

A Mãe de Honorato foi muitas vezes tentar fazer isso, mas era tão grande, feia e monstruosa a cobra, que ela não tinha coragem e voltava sem ser capaz de cumprir o que lhe pedira o filho. Ele, porém, garantia que a cobra, apesar da aparência, nada lhe faria de mal.

O mesmo pedido fez eles a muitas outras pessoas, garantindo a mesma coisa, mas quando iam elas cumprir o pedido e viam tamanho monstro, corriam aterrorizadas para trás, e por isso ele não podia desencantar.

Costumava então aparecer nos bailes ribeirinhos, encantando a todos com a sua elegância. Desaparecia para surgir, cinquenta léguas adiante, noutro baile. Na margem do rio ficava a pele enorme da cobra, esperando a volta do seu infeliz dono.

Estando ele certa feita nas águas do rio Tocantins, chegou a cidade de Cametá (município do Pará). À noite, ali, procurou um soldado, conhecido pela sua bravura, e lhe fez o costumeiro pedido. Dessa vez, aquele destemido soldado, foi à beira do rio, viu o monstro inerte, mas não recuou como todos os outros. Colocou leite na boca da cobra, e em sua cabeça deu uma cutucada com um punhal que a fez sangrar.

A partir daquele dia, Honorato finalmente desencantou e se transformou de vez em gente. Deixou de ser cobra Dágua para viver na terra com sua família, como um homem normal. O imenso corpo da cobra foi então queimado e reduzido à cinzas, que logo se espalharam pelo rio.

Cobra Grande veio até uma índia formosa que se banhava sozinha nas águas de um igarapé, não era coisa direita mulher moça se banhar em noite de luar quando estava “naqueles dias”. Boiaçu se agradou da moça e foi ter com ela. Pariu duas cobrinhas, que nasceram e logo rastejaram para um igarapé e sumiram na imensidão do Grande Rio.

Caninana nasceu pouco antes do irmão, era geniosa, malvada, tinha raiva de gente, furava redes, afogava homens, devorava peixes pequenos. Noratinho, o caçula era diferente, sempre visitava a mãe e à noite mamava o leite de seu peito enquanto ela dormia, se afeiçoou às pessoas, fez amizades entre os homens e sucesso com a mulherada.

Caninana que não perdia tempo no mundo dos homens, cresceu sozinha na mata, entre os bichos, era maior, mais feroz e mais forte dos dois e sua raiva cresceu com ela.

Eram como água e óleo, se desentendiam e o desentendimento foi crescendo e virou briga feia, até que em uma briga Caninana arrancou um dos olhos de Norato. Foi então que decidiu dar um fim naquilo. Sabendo que o coração da irmã estava envenenado por ódio e rancor, virou cobra e foi procurar a irmã. Pediu uma revanche! A malvada furiosa seguiu atrás dele, que era menor, mais esperto e mais rápido.

Foram parar em um ponto estreito e profundo do Grande Rio, Norato saltou e passou para o outro lado, Caninana, bem maior e cega de ódio, não saltou a tempo e ficou presa nas profundezas do Estreito de Óbidos, até os dias de hoje.

Lá de vez em quando se forma um redemoinho traiçoeiro, que leva e desaparece com qualquer um, engolindo os desavisados. Dizem que é ela respirando. Nem presa a danada deixa de ser péssima!

Gostou da primeira parte das lendas brasileiras? Conseguiu identificar os problemas e dilemas contidos e discutidos nas mesmas? Já conhecia algumas?

Mitos e Lendas: Parte 2, Parte 3, As 10 mais legais!


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